Eu sempre tive vontade de ter um pequeno café na Itália. Imaginava um lugar acolhedor, com café, bolos e produtos simples, onde as pessoas gostassem de passar um tempo. Por isso, quando apareceu uma cafeteria à venda em Cisternino, fomos conhecer.
Tínhamos chegado à Itália em fevereiro de 2026 e a visita aconteceu aproximadamente em março. O preço pedido era de cerca de €40 mil, com aluguel separado. A oportunidade parecia interessante, mas conversar com o proprietário nos fez olhar além do valor da compra.
Não concluímos que o negócio fosse ruim. Percebemos que a operação disponível era diferente do empreendimento e da rotina que procurávamos.
As fotografias deste artigo são autorais e ilustrativas. Não mostram nem identificam a cafeteria que visitamos.
Como surgiu a oportunidade de comprar um café na Itália
Não estávamos procurando ativamente uma cafeteria para comprar. Um amigo que trabalhava no setor de restaurantes comentou sobre o estabelecimento e surgiu a possibilidade de entrarmos juntos no investimento, dividindo a sociedade em partes iguais.
Ter alguém com experiência no setor tornava a conversa mais concreta. Pensamos na possibilidade de contratar funcionários e contar com esse conhecimento para conduzir a operação. Ainda assim, uma sociedade não responderia sozinha a uma pergunta importante: quanto da nossa presença o café exigiria?
Naquele momento, estávamos conhecendo a oportunidade. Não tínhamos decidido comprar, nem definido uma estrutura de gestão para o negócio.

Nossa visita à cafeteria em Cisternino
A cafeteria ficava fora do centro histórico, em uma rua movimentada, com vagas de estacionamento pagas nas proximidades. Na minha percepção durante a visita, parecia atender principalmente moradores. Não recebemos dados que comprovassem o perfil da clientela.
O espaço tinha equipamentos instalados, inclusive uma máquina para fazer sorvetes, além de bebidas alcoólicas, aperitivos e mesas externas. Era uma proposta mais ampla do que apenas servir café e alguns acompanhamentos.
Essa localização também precisava ser entendida a partir da vida da cidade. Já contamos como é nossa rotina em Cisternino, mas morar em um lugar e avaliar o público de um comércio são observações diferentes. Uma rua movimentada não revela, sozinha, quantas pessoas entram ou quanto consomem.

O que os €40 mil representavam na proposta
O valor informado pelo proprietário era de aproximadamente €40 mil pela venda do negócio. O aluguel do imóvel seria pago à parte. Portanto, a conversa era sobre adquirir uma atividade existente, e não comprar o imóvel onde ela funcionava.
Vimos equipamentos no local, mas não fizemos um inventário contratual do que seria transferido. Antes de avançar, seria necessário confirmar quais bens entrariam na negociação, sua condição e a situação de cada um. Equipamento instalado não é, por si só, uma garantia de inclusão na venda.
Dividir o investimento com outro sócio poderia repartir o valor da aquisição. Não eliminaria aluguel, estoque, pessoal e demais despesas de funcionamento. O preço pedido era apenas uma parte do dinheiro necessário para assumir a operação.
O funcionamento do café e a necessidade de funcionários
Segundo o proprietário, havia clientes desde aproximadamente 5h da manhã, uma pausa em parte da tarde e funcionamento até perto das 20h. Esses horários foram apresentados na conversa, não conferidos em documentos ou acompanhados por nós ao longo de um dia.
Ele também falou em cerca de quatro funcionários, além dele próprio. Pelo que entendi, eram dois em um turno e dois em outro, enquanto o proprietário permanecia presente durante boa parte do dia.
Foi isso que mais chamou nossa atenção. A existência de uma equipe não significava necessariamente uma operação independente do dono. Consideramos contratar pessoas e contar com a experiência do possível sócio, mas começamos a pensar que também precisaríamos participar diretamente.
Era uma impressão inicial, não o resultado de uma análise formal. Mesmo assim, trouxe para a conversa o trabalho cotidiano que viria junto com a compra.
Os números que tentamos avaliar antes de investir
O proprietário comentou informalmente alguns custos de funcionamento e fizemos estimativas preliminares. Não recebemos demonstrações financeiras, balanços, documentos contábeis ou comprovantes de faturamento. Também não me recordo dos valores exatos das despesas mencionadas.
Por isso, não seria correto apresentar aqui uma margem de lucro ou calcular em quanto tempo recuperaríamos o investimento. Nossa conversa não chegou a esse nível de verificação.
Na época, os resultados que estimamos não pareceram necessariamente ruins. A dedicação exigida pesou mais na decisão. Isso é diferente de afirmar que a rentabilidade estava comprovada: sem documentos, permaneciam perguntas importantes sobre receitas, despesas e o resultado efetivo da atividade.
O café que estava à venda não era o café que imaginávamos
Meu sonho tinha uma escala menor. Eu pensava em um café intimista, com uma proposta simples e acolhedora. O estabelecimento visitado era relativamente grande e reunia sorvetes, bebidas alcoólicas, aperitivos e muitas horas de funcionamento.
Nenhuma dessas características era um defeito. Elas apenas apontavam para outro tipo de empreendimento. Gostar da ideia de ter um café não significava querer administrar aquela combinação de serviços, equipe e horários.
Essa diferença ajudou a separar o desejo pessoal da oportunidade concreta. Não bastava o negócio já existir: ele também precisava combinar com aquilo que estávamos dispostos a construir e acompanhar.
A importância de ter um diferencial para atrair clientes
Chegamos a discutir maneiras de diferenciar o estabelecimento e atrair turistas. Não tínhamos uma proposta definida, mas entendíamos que repetir o modelo de outros cafés não seria necessariamente suficiente para criar uma posição competitiva.
Ao mesmo tempo, não fazia sentido presumir que turistas substituiriam o público que já frequentava o lugar. Antes de mudar a proposta, precisaríamos conhecer melhor a clientela e suas razões para escolher aquele café.
Em outro artigo, compartilhamos aprendizados sobre atrair turistas para um negócio na Itália. Aqui, essas possibilidades ficaram apenas na discussão inicial, sem teste ou resultado que possamos atribuir à cafeteria.

Por que decidimos não comprar
Decidimos não seguir com a compra pela combinação entre operação extensa, possível necessidade de presença diária, gestão de turnos e responsabilidades administrativas. Tudo isso se somava à distância entre o café disponível e o espaço que eu imaginava.
Não foi uma conclusão de que o estabelecimento estivesse supervalorizado ou não desse lucro. Não tínhamos elementos para afirmar isso. Naquele momento, a oportunidade não correspondia ao nosso perfil de investimento e ao estilo de vida que procurávamos.
O que aprendemos ao avaliar um negócio na Itália
A visita mostrou que avaliar um negócio é também avaliar o trabalho que ele exige. Hoje, antes de avançar em uma oportunidade semelhante, organizaríamos melhor as perguntas e buscaríamos apoio profissional para conferir as respostas. Estas são orientações gerais, não documentos que nós efetivamente analisamos naquela ocasião.
Perguntas que levaríamos para uma próxima avaliação
- Qual é o faturamento documentado e como varia ao longo do ano?
- Quais são os custos fixos e variáveis, incluindo a remuneração do trabalho dos proprietários?
- Quais equipamentos e estoques estão incluídos, em que condições e sob quais contratos?
- Quais funcionários, contratos e obrigações trabalhistas existem?
- Qual é a situação do aluguel, incluindo condições para continuidade da atividade no imóvel?
- Qual é a carga de trabalho e o que depende diretamente do proprietário?
- Quanto dinheiro seria necessário além da compra para manter a operação?
Também separaríamos o orçamento do negócio das despesas pessoais. Nossos gastos de vida na Puglia são um relato doméstico; não servem como referência de custos para administrar uma cafeteria.
Verificações técnicas antes de assumir uma atividade
Uma transferência de atividade, que pode envolver uma cessione d’azienda, precisa ser examinada conforme a operação concreta. A documentação deve esclarecer o que se adquire e distinguir a atividade empresarial da propriedade ou locação do imóvel.
Para verificar informações cadastrais e documentos empresariais, a Camera di Commercio explica o acesso a visure, atos e balanços depositados. A disponibilidade de balanços depende da forma empresarial; não se deve presumir que toda cafeteria tenha esses documentos publicados.
A presença de empregados também merece análise específica. O Ministero del Lavoro informa que o vínculo de trabalho continua com o novo titular no caso de transferência de empresa, preservando direitos. Não é um ponto que se resolve apenas calculando o custo de novas contratações.
Em Cisternino, o SUAP municipal orienta sobre práticas de atividades produtivas e disponibiliza documentação de subingresso. É junto a esse órgão e aos profissionais responsáveis que é importante confirmar os procedimentos aplicáveis, sem presumir que a compra dispense verificações administrativas.
Esses cuidados não substituem a avaliação de um commercialista, de um consulente del lavoro e de apoio jurídico ou notarial, conforme o caso. Nossa visita não foi uma auditoria nem uma due diligence formal.

Vale a pena comprar uma cafeteria na Itália?
Pode fazer sentido para quem conhece a operação, confirma os números e deseja assumir a rotina necessária. Mas uma experiência como a nossa não permite responder por todos os investidores ou por outros estabelecimentos.
Antes de comprar um negócio na Itália, vale confrontar preço, documentação, dedicação e objetivos pessoais. No nosso caso, gostamos da possibilidade de ter um café, mas não daquela operação para aquele momento. Reconhecer essa diferença foi o aprendizado mais importante da visita.
