Quando decidimos morar na Puglia, uma das escolhas mais importantes não foi apenas a região, mas também o tamanho da cidade onde queríamos viver. Hoje moramos em Cisternino, uma cidade de cerca de 11 mil habitantes no Valle d’Itria, e depois de alguns meses vivendo aqui já conseguimos perceber com bastante clareza o que muda quando uma cidade pequena italiana deixa de ser um lugar de férias e passa a fazer parte da rotina.
Já contamos aqui no DONEDA por que escolhemos morar na Puglia. Mas existe uma diferença enorme entre visitar uma cidade pequena por alguns dias e realmente morar nela.
É quando você precisa fazer supermercado, receber uma encomenda, ir à academia, trabalhar, resolver documentos, descobrir o que continua aberto nos meses mais tranquilos ou simplesmente comprar alguma coisa no meio da tarde que começa a conhecer a vida real do lugar.
E, no nosso caso, morar em uma cidade pequena trouxe algumas limitações que já esperávamos — e outras que fomos descobrindo —, mas também confirmou boa parte do estilo de vida que estávamos procurando.
Nossa rotina em Cisternino
Como é um dia normal para nós
Nossa rotina não é exatamente igual todos os dias porque hoje dividimos o trabalho entre atividades feitas pelo computador e o Mani e Farina, nossa experiência gastronômica na Puglia.
Normalmente acordamos por volta das 8h ou 8h30.
Nos dias em que temos cooking class, tomamos café, nos organizamos e saímos de casa para chegar ao local da experiência por volta das 10h. Geralmente voltamos para casa depois das 14h e, nesses dias, o almoço acaba acontecendo mais tarde, entre 14h30 e 15h.
Quando não temos aula, começamos o dia trabalhando de casa. Grande parte das nossas outras atividades envolve marketing, projetos digitais e demandas que conseguimos resolver pelo computador.
Nesses dias, normalmente almoçamos por volta das 13h.
No fim da tarde tentamos ir à academia e, principalmente durante o verão, quase sempre existe alguma possibilidade de programa depois do trabalho. Às vezes vamos à praia, encontramos alguma festa em uma das cidades da região, saímos para jantar ou simplesmente passeamos.
À noite também gostamos muito de ficar em casa assistindo a uma série e normalmente dormimos perto da meia-noite.
Curiosamente, mudar para uma cidade muito menor deixou nossa vida mais movimentada, e não mais parada.
O que mudou em relação aos Estados Unidos
Antes de vir para a Itália, moramos durante aproximadamente nove anos nos Estados Unidos.
Nos últimos anos lá, trabalhávamos praticamente 100% online. Nossa rotina era muito organizada e previsível: acordávamos, tomávamos café, trabalhávamos de casa, almoçávamos entre meio-dia e 13h e normalmente jantávamos entre 18h e 19h.
Durante a semana, não tínhamos o hábito de sair muito.
Aqui isso mudou.
Apesar de Cisternino ser muito menor do que as cidades onde já vivemos, sentimos que há muito mais coisas acontecendo ao nosso redor, especialmente durante os meses mais quentes.
Também mudaram nossos horários. O almoço muitas vezes acontece mais tarde e nossa rotina noturna também se deslocou para horários diferentes daqueles aos quais estávamos acostumados nos Estados Unidos.
Trabalhar de casa em uma cidade pequena
Morar em uma cidade pequena pode funcionar muito bem para quem trabalha online.
Nos dias sem cooking class, conseguimos passar praticamente todo o dia trabalhando pelo computador em casa.
Por outro lado, nosso trabalho hoje também tem uma parte presencial. Quando temos uma experiência pela manhã, boa parte do dia acaba organizada em função dela e o trabalho de computador fica concentrado mais para o fim da tarde.
Para nós, essa combinação funciona bem.
E também tornou nossa rotina mais variada do que aquela que tínhamos quando tudo acontecia exclusivamente dentro de casa.
A vida prática em uma cidade pequena
Dá para morar em Cisternino sem carro?
É possível fazer muitas coisas a pé no centro de Cisternino.
Temos mercado, padaria, cafés, restaurantes e outros serviços relativamente próximos. Dependendo de onde você mora e da sua rotina, é possível resolver bastante coisa sem entrar no carro.
Mas, para nós, o carro é indispensável.
Usamos para ir ao supermercado maior, à academia, à praia, às cidades vizinhas e para resolver serviços que Cisternino simplesmente não oferece.
Sem carro, nossa experiência de morar aqui seria completamente diferente.
Isso ficou especialmente claro nos meses mais tranquilos, quando a quantidade de estabelecimentos abertos diminui e ter liberdade para ir a Martina Franca ou a outras cidades próximas faz ainda mais diferença.
Por isso, para alguém que pensa em morar em uma cidade pequena da Puglia, eu colocaria a questão do transporte entre os primeiros pontos a considerar.
Supermercado e compras do dia a dia
Apesar do tamanho de Cisternino, não sentimos dificuldade para as compras básicas.
Temos uma padaria e um mercado que poderíamos usar caminhando, mas preferimos fazer uma compra maior uma vez por semana em um supermercado que fica a poucos minutos de carro.
Para nós acaba sendo mais prático comprar tudo de uma vez.
Quando precisamos de lojas maiores ou de itens mais específicos para casa, cozinha ou outras necessidades, normalmente vamos até Martina Franca, que fica muito perto e oferece uma estrutura maior.
Essa proximidade ajuda bastante.
Você mora em uma cidade pequena sem necessariamente estar distante de tudo.
Comprar pela internet funciona normalmente, mas a entrega é diferente
Amazon e outras compras online funcionam muito bem por aqui.
Já compramos encomendas, itens para casa e várias outras coisas sem grandes dificuldades.
O que sentimos diferente em relação aos Estados Unidos é principalmente a entrega.
Lá estávamos acostumados com encomendas sendo simplesmente deixadas na porta. Aqui, morando em prédio, normalmente o entregador toca a campainha e precisa encontrar alguém para receber.
Se não estamos em casa, dependendo da entrega, o pacote pode acabar encaminhado para algum ponto de retirada.
Para encomendas menores também usamos lockers da Amazon, o que facilita bastante.
Não é uma dificuldade propriamente dita, mas é uma dessas pequenas diferenças do cotidiano que você só percebe depois de morar.
Os horários do comércio exigem adaptação
Esse talvez seja um dos hábitos que mais precisamos considerar na organização do dia.
Muitos comércios abrem pela manhã, fecham perto do horário do almoço e só voltam a funcionar no fim da tarde.
Aos domingos, alguns mercados e estabelecimentos também funcionam somente pela manhã ou até o começo da tarde.
Não diria que isso atrapalha nossa vida, mas exige adaptação.
Por exemplo: se temos uma cooking class pela manhã e voltamos para casa por volta das 14h, pode acontecer de alguma coisa que queríamos resolver naquele momento estar fechada.
Então precisamos esperar o comércio reabrir mais tarde.
Depois de um tempo você se acostuma. Mas, para quem vem de lugares onde tudo funciona praticamente o dia inteiro, é uma mudança perceptível.
Cisternino muda muito entre o verão e os meses mais tranquilos

Chegamos à Puglia no dia 6 de fevereiro de 2026, então fevereiro e março foram justamente nossos primeiros contatos com a cidade como moradores.
Cisternino estava muito mais vazia e muitos estabelecimentos estavam fechados.
Algumas coisas permanecem abertas durante todo o ano, mas outras funcionam muito mais ligadas à temporada turística.
Quando precisávamos de mais opções, Martina Franca acabava sendo uma alternativa fácil, porque é uma cidade maior e mantém mais serviços disponíveis.
No verão, a experiência muda bastante.
Há muito mais turistas, restaurantes cheios, eventos e festas frequentes não apenas aqui, mas em várias cidades da região.
A vida noturna fica mais ativa e o movimento nas ruas também muda.
Ainda não completamos um ciclo anual inteiro vivendo na Puglia, então não queremos transformar nossa experiência dos primeiros meses em uma regra sobre como cada época do ano funciona.
Mas uma coisa já ficou clara: visitar Cisternino durante o auge do verão e viver aqui durante fevereiro e março são experiências bastante diferentes.
Morar perto da praia é uma vantagem que realmente aproveitamos

Morar perto do mar era um desejo nosso antes da mudança e, nesse aspecto, a realidade está sendo muito boa.
Tentamos ir à praia pelo menos uma vez por semana durante os meses em que o clima permite.
Algumas vezes terminamos a cooking class e seguimos direto para passar o resto do dia no mar.
Isso mudou bastante nossa relação com a praia.
Ela deixou de ser algo reservado para férias ou para um fim de semana planejado com muita antecedência. Virou uma possibilidade normal dentro da semana.
Claro que é preciso querer aproveitar. A rotina continua existindo e sempre haverá trabalho e compromissos.
Mas, no nosso caso, fazemos questão de incluir o mar na nossa vida sempre que conseguimos.
Ter tantas cidades próximas evita a sensação de isolamento
Uma das melhores características de Cisternino é a localização.
Estamos próximos de Martina Franca, Locorotondo, Ostuni, Alberobello e de várias outras cidades da região.
Isso significa que não precisamos encontrar tudo dentro de Cisternino.
Podemos escolher um restaurante em outra cidade, ir a uma festa em outro município, passear, fazer compras ou simplesmente mudar de ambiente sem dirigir durante horas.
Essa proximidade amplia muito as possibilidades de lazer.
É também uma das razões pelas quais, pessoalmente, não sentimos que moramos isolados apesar do tamanho da cidade.
Comunidade, acolhimento e idioma
Aqui existe aquela sensação de que todo mundo se conhece
Em uma cidade pequena, você começa a encontrar as mesmas pessoas.
Reconhece comerciantes, cruza novamente com alguém que já encontrou antes e percebe que existe uma relação de comunidade muito mais evidente.
E eu gosto muito disso.
Na nossa experiência pessoal, também sentimos as pessoas daqui do sul mais acolhedoras do que durante outro período em que vivemos no norte da Itália.
Isso, claro, é apenas nossa percepção e não uma regra sobre italianos do norte ou do sul.
Mas foi uma diferença que nós sentimos.
Para mim, existe algo muito agradável em sair, passar pela praça, encontrar pessoas conhecidas e perceber que você começa a fazer parte da rotina daquele lugar.
Morar aqui também me obriga a falar italiano
Essa é uma parte difícil — e ao mesmo tempo muito positiva — da experiência.
Em Cisternino, muita gente não fala inglês.
Então não existe sempre a possibilidade de simplesmente mudar de idioma quando eu não sei explicar alguma coisa.
Eu preciso tentar falar italiano.
Isso às vezes é desconfortável porque obviamente ainda estou aprendendo, mas também me obriga a praticar muito mais.
No fim das contas, morar em uma cidade pequena acabou acelerando essa necessidade de usar italiano no cotidiano.
É ruim quando você está tentando resolver alguma coisa mais complexa e faltam palavras.
Mas é ótimo para aprender.
O que está sendo melhor do que imaginávamos
Há várias coisas.
A tranquilidade é uma delas.
Também gostamos muito da comida, da natureza, do ritmo, da proximidade com o mar e da sensação de morar em um lugar menor.
Depois de anos em ambientes maiores, percebemos que não sentimos falta do trânsito, do barulho e daquele ritmo constante de uma grande cidade.
Para mim, esse estilo de vida combina bastante com aquilo de que sempre gostei.
E o que é mais difícil?
A burocracia italiana
Para nós, essa é uma das partes mais complicadas.
Processos relacionados a documentos e questões administrativas podem ser demorados e nem sempre funcionam de maneira tão simples quanto gostaríamos.
É uma parte da vida na Itália que exige paciência.
A relação com horários e pontualidade
Outro ponto de adaptação é a relação com horários.
Em algumas situações encontramos aqui uma flexibilidade maior do que aquela à qual estávamos acostumados depois de tantos anos vivendo nos Estados Unidos.
Como nós somos muito pontuais, isso ainda nos incomoda em algumas situações.
Mas tratamos isso como uma diferença de rotina e de hábitos, e não como uma característica absoluta de todas as pessoas.
Algumas limitações fazem parte de morar em uma cidade pequena
A pausa do comércio durante o dia é um exemplo.
Também há situações em que precisamos dirigir até outra cidade para encontrar uma loja maior ou determinado serviço.
Não são problemas que hoje pesem muito para nós, mas fazem parte da rotina real.
Do que sentimos falta de uma cidade maior?
De pouca coisa.
Talvez de um shopping, de uma academia com uma estrutura maior e de mais opções de delivery.
Quando precisamos de lojas maiores para comprar itens para casa ou produtos mais específicos, normalmente precisamos dirigir até outra cidade.
Alguns serviços também exigem deslocamento.
Para nós, como as cidades próximas ficam relativamente perto, isso não representa hoje um grande problema.
Receber família e amigos aqui tem sido uma experiência muito boa
Desde que nos mudamos, já recebemos familiares e amigos e a experiência tem sido ótima.
Eles gostam muito da região e, ao contrário do que alguém poderia imaginar, morar numa cidade pequena não dificultou mostrar a Puglia.
Na verdade, a localização facilita bastante.
Em pouco tempo conseguimos chegar a cidades diferentes, praias, restaurantes e atrações.
Isso faz com que cada dia possa ter um programa completamente diferente sem precisar fazer grandes deslocamentos.
Trabalhar e empreender em uma cidade pequena é outra história
Aqui existe uma diferença importante.
Para alguém que trabalha remotamente, morar numa cidade pequena pode ser relativamente simples.
Já para quem depende de conseguir um emprego local ou pretende empreender, a análise precisa ser diferente.
No nosso caso, chegamos à Puglia já com algumas condições específicas: conhecíamos pessoas na região, trabalhávamos com atividades que podiam ser feitas online e decidimos desenvolver também um negócio ligado ao turismo.
Isso nos ajudou.
Mas eu não presumiria que se mudar para uma cidade de cerca de 11 mil habitantes e depois descobrir como trabalhar seja tão simples quanto fazer a mesma mudança para uma grande cidade.
São decisões que precisam caminhar juntas.
Nós nos sentimos isolados morando aqui?
Não.
E talvez essa seja uma das respostas mais pessoais deste artigo.
Eu e meu marido sempre vivemos muito bem juntos e não precisamos de uma vida social extremamente intensa para nos sentirmos bem.
Além disso, já conhecemos pessoas na região, encontramos conhecidos pela cidade e temos vários outros municípios a poucos minutos de distância.
Por isso, mesmo morando em uma cidade pequena, não sentimos isolamento.
Para outra pessoa, naturalmente, a sensação pode ser completamente diferente.
Para quem esse estilo de vida pode funcionar?
Para quem pode funcionar muito bem
Na nossa percepção, esse estilo de vida pode funcionar muito bem para casais, famílias e pessoas que gostam de uma rotina mais tranquila.
Também faz bastante sentido para quem trabalha remotamente ou não depende todos os dias da estrutura de uma grande cidade.
Ter carro, pelo menos na nossa região, muda muito a experiência.
Também ajuda gostar de pequenas coisas: sair para tomar um café, passear pela praça, conhecer os comerciantes, encontrar pessoas conhecidas, dirigir poucos minutos para jantar em outra cidade ou passar algumas horas na praia.
E para quem talvez não funcione?
Eu pensaria duas vezes se a pessoa precisa de:
- vida noturna intensa durante todo o ano;
- grande variedade de lojas e serviços a poucos minutos de casa;
- shopping;
- muito delivery;
- estrutura urbana grande;
- viver sem depender de carro;
- movimento constante.
Também é importante entender que cidades turísticas podem mudar bastante ao longo do ano.
Quem se apaixona por um vilarejo cheio de gente no verão precisa imaginar como seria viver ali também durante os meses em que as ruas ficam mais silenciosas e parte dos estabelecimentos fecha.
Afinal, como é morar em uma cidade pequena na Itália?

Para mim, é muito bom.
Eu gosto da ideia de sair de casa, ir até a praça, tomar um sorvete, encontrar pessoas que já conhecemos e viver em um lugar onde o trânsito e o barulho não comandam o dia.
Sempre gostei mais de cidades pequenas do que de grandes centros.
Cisternino tem limitações e exige algumas adaptações. Dependemos bastante do carro, precisamos respeitar os horários do comércio e, para determinados serviços, dirigimos até cidades maiores.
Mas essas coisas, até agora, pesam muito menos para nós do que aquilo que ganhamos com esse estilo de vida.
A tranquilidade, a proximidade da praia, a natureza, a comida e a facilidade de estar em várias cidades bonitas da Puglia em poucos minutos fazem com que a vida aqui combine bastante conosco.
Isso não significa que seja o melhor lugar ou o melhor estilo de vida para todo mundo.
Mas depois de alguns meses vivendo de verdade em uma cidade pequena italiana — trabalhando, fazendo supermercado, resolvendo problemas e vivendo também os dias comuns — podemos dizer que foi justamente esse tipo de vida que estávamos procurando.
