Quando decidimos morar na Itália, eu sabia que a nossa rotina mudaria, mas não conseguia imaginar exatamente quanto. Nos Estados Unidos, meu trabalho era quase todo online e os dias seguiam um ritmo previsível. Eu passava muitas horas em casa, organizava os compromissos com antecedência e já conhecia bem a lógica da vida que havíamos construído em Orlando.
Antes da mudança para a Itália, eu imaginava duas possibilidades. Talvez encontrássemos uma vida mais calma, com o ritmo de uma cidade pequena, ou talvez os novos projetos deixassem tudo ainda mais corrido. Depois de oito meses morando na Puglia, posso dizer que as duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. A rotina ficou mais intensa em alguns momentos, mas também ganhamos uma qualidade de vida que eu não sentia havia muito tempo.
Chegamos em fevereiro de 2026 e, desde então, trabalho, casa, idioma, amizades e relação com o tempo mudaram de forma muito concreta. Esta é a nossa experiência morando na Itália até aqui, com as partes boas e também com os processos que exigiram mais paciência.
Nossa rotina mudou completamente
Nos Estados Unidos, eu trabalhava quase sempre de casa. Hoje continuo com as atividades online, mas elas dividem espaço com o trabalho presencial nas cooking classes. Isso alterou não apenas a agenda, mas a maneira como eu vivo os dias. Saio de casa quase diariamente, encontro pessoas, caminho pela cidade e tenho uma relação muito mais próxima com o lugar onde moro.
Em Cisternino, fazemos a maior parte da rotina a pé. Caminho para o trabalho e volto para casa andando. Usamos o carro principalmente para ir ao supermercado, resolver algo fora da cidade ou conhecer outros lugares da região. Essa facilidade parece simples, mas representa uma mudança enorme quando comparo com a vida em Orlando, onde quase tudo exigia entrar no carro.
Também passamos a sair muito mais. Há cidades próximas para conhecer, festas de verão, eventos locais, restaurantes e lugares para tomar um aperitivo. Para entender melhor esse cotidiano, contamos em outro artigo como é morar em uma cidade pequena na Itália, especialmente em Cisternino.
Trabalhar deixou de significar ficar o dia inteiro em casa
O trabalho continua ocupando boa parte dos nossos dias, mas agora tem outra forma. Eu divido o tempo entre o online e as cooking classes. Consigo controlar grande parte da agenda e, se não quero marcar uma atividade em determinada data, geralmente posso me organizar assim. Ao mesmo tempo, as aulas dependem da disponibilidade do chef e do calendário de reservas, então existe uma dinâmica que não depende apenas de mim.

Em alguns sentidos, a rotina ficou mais intensa do que nos Estados Unidos. Lá eu tinha horários mais próximos de um expediente tradicional, com começo, fim e pausa para o almoço. Aqui, nos dias de cooking class, começo mais tarde, participo da aula e depois volto para casa para continuar o trabalho online. O dia acaba se estendendo, embora eu goste da variedade e do contato com pessoas.
O horário comercial local também pediu adaptação. Muitos estabelecimentos fecham durante o almoço, e várias tarefas precisam ficar para depois das cinco ou seis da tarde. Aos poucos, aprendemos a planejar as compras e os compromissos dentro desse ritmo.
A qualidade de vida foi uma das maiores mudanças
Para mim, qualidade de vida aparece em detalhes cotidianos. Poder caminhar com tranquilidade, chegar ao trabalho a pé e sair para jantar sem transformar o passeio em uma operação fazem diferença. Também valorizo muito a sensação de segurança que tenho ao andar pela cidade, inclusive quando volto para casa mais tarde.

A comida também participa dessa mudança. Na nossa experiência, é fácil encontrar opções de que gostamos, com ingredientes que parecem frescos e preços que muitas vezes consideramos mais acessíveis do que os de restaurantes parecidos nos Estados Unidos. Não sentimos saudade da comida de lá. Isso é uma preferência pessoal, ligada ao nosso gosto e ao tipo de alimentação que buscamos, e não uma regra sobre os dois países.
No verão, aproveitamos as praias da Puglia e conciliamos o trabalho com passeios por cidades próximas, restaurantes, aperitivo e eventos. Às vezes temos a sensação de viver em um lugar onde outras pessoas passam as férias. Isso não significa estar de férias o tempo todo, porque há trabalho e responsabilidades, mas o ambiente muda a forma como usamos as horas livres.
Gastamos menos, mas também ganhamos menos
Nossa relação com dinheiro mudou junto com a rotina. Hoje gastamos consideravelmente menos do que gastávamos nos Estados Unidos, mas também ganhamos menos. Não seria honesto olhar apenas para uma dessas partes. A renda e o custo da vida caminham juntos, e o equilíbrio atual funciona de uma maneira diferente para nós.
Nos Estados Unidos, sentíamos que era possível ganhar mais, mas os gastos também eram altos. Além disso, eu percebia uma pressão maior para ter uma casa maior, um carro melhor e acompanhar o padrão das pessoas ao redor. Na Itália, pelo menos na realidade que vivemos na Puglia, sinto menos necessidade de demonstrar sucesso por meio das coisas que possuímos. É uma percepção da nossa experiência, não uma comparação absoluta entre culturas.
O que sentimos falta dos Estados Unidos
Gostar da vida na Itália não apaga o que era bom nos Estados Unidos. Sentimos muita falta dos amigos e da convivência que construímos ao longo dos anos. Também sentimos falta da praticidade das compras, da organização de parte da infraestrutura, das ruas largas e da facilidade para estacionar. São aspectos que só ficam realmente evidentes quando deixam de fazer parte da rotina.

Por outro lado, não sentimos falta da comida. A alimentação na Itália combina mais com o nosso paladar, e a variedade de ingredientes e preparos locais nos agrada muito. Ainda assim, guardamos carinho pela vida em Orlando e por tudo o que construímos ali. Ter escolhido outro caminho não transforma o período anterior em um erro.
A burocracia e a moradia foram as partes mais cansativas
A parte mais difícil desses oito meses foi a burocracia. Informações nem sempre são claras, os processos demoram e muitas etapas exigem presença física. No nosso caso, eu precisei cuidar do permesso di soggiorno, enquanto o Léo tratou de documentos italianos. Houve idas ao comune, à Questura e a outros locais para pagamentos, comprovantes e recibos. Como a Questura fica a cerca de uma hora de onde moramos, cada pendência consome uma parte importante do dia.
Essa é apenas a nossa experiência pessoal, porque cada situação documental tem regras próprias. Em outro conteúdo, relatamos como fizemos a tessera sanitaria na Itália, incluindo os passos que encontramos no nosso processo.
A moradia também trouxe desgaste. Já estamos na terceira casa desde que chegamos em fevereiro. Primeiro ficamos em um Airbnb, depois alugamos uma casa cujo proprietário pediu de volta e, então, mudamos novamente. Encontrar um imóvel sem uma rede local de contatos pode ser difícil, principalmente quando tentamos conciliar localização, condições do espaço, conforto e tipo de contrato. Já havíamos contado sobre a busca para alugar um imóvel na Puglia, e os meses seguintes mostraram como esse processo pode continuar exigindo flexibilidade.
Fizemos amigos e o italiano deixou de ser um grande problema
Uma mudança internacional poderia ter sido solitária, mas conseguimos formar uma rede de apoio. Há brasileiros na cidade, fizemos amizades com italianos por meio do trabalho e hoje temos uma vida social relativamente ativa. O trabalho presencial teve um papel importante nisso, porque criou encontros que dificilmente aconteceriam se eu continuasse todos os dias em casa.

O italiano também deixou de ser um grande problema no cotidiano. Trabalho com um chef italiano e uso o idioma todos os dias. Ainda existem situações mais técnicas ou burocráticas em que o Léo assume a conversa por ser fluente, mas consigo participar da rotina com muito mais segurança do que no começo. Já escrevi sobre como foi morar na Itália sem falar italiano com fluência e o que mudou depois dos primeiros meses.
Em alguns atendimentos encontrei pessoas impacientes quando eu demorava para entender ou responder. Isso aconteceu conosco em situações específicas e não define os italianos nem o país. Na maior parte do tempo, a prática diária e a disposição para continuar falando ajudaram a diminuir a insegurança.
O nosso negócio foi uma das maiores surpresas
Chegamos à Itália em fevereiro e usamos fevereiro e março para estruturar a cooking class. A primeira aula aconteceu em 1º de abril de 2026. Em cerca de seis meses, recebemos mais de cem avaliações positivas no Google, um resultado que nos deixou muito felizes e orgulhosos do trabalho construído com o chef.
Também ficamos surpresos com o movimento em outubro. Imaginávamos que as reservas diminuiriam bastante depois do verão, mas elas continuam chegando em um ritmo bom. Ainda é um negócio novo, sujeito às temporadas e a muitos aprendizados, porém a resposta dos participantes mostra que a experiência encontrou espaço.
A vida ficou mais simples, e isso não significou viver pior
Hoje temos um carro mais simples e moramos em um apartamento menor do que a casa onde vivíamos nos Estados Unidos. Mesmo assim, estamos confortáveis e gostando desta fase. O tamanho da casa e o modelo do carro perderam parte da importância porque a vida acontece muito fora de casa e porque conseguimos resolver várias coisas caminhando.
Viver de forma mais simples não significou perder qualidade. Para nós, significou trocar espaço e consumo por proximidade, mobilidade a pé e tempo para conhecer a região. Essa troca não seria igual para todas as pessoas, mas faz sentido dentro das prioridades que temos hoje.
A Itália já parece casa?
Depois de oito meses, a Itália já parece casa. Saí do Brasil no início de 2017, morei nos Estados Unidos e agora vivo na Puglia. Com o tempo, a ideia de casa ficou mais ampla. Ela inclui os lugares onde criamos relações, assumimos responsabilidades e começamos a reconhecer os pequenos hábitos do dia a dia.
Hoje imaginamos continuar na Puglia nos próximos anos. Talvez possamos viver em outra cidade da região algum dia, mas não temos planos de voltar a morar nos Estados Unidos, apesar de termos cidadania e passaporte americanos. Queremos visitar o país em 2027, rever amigos e lugares importantes, sem transformar essa viagem em um plano de retorno.
Depois de oito meses, faríamos tudo de novo?
Sim, faríamos a mudança novamente. Chegar em fevereiro foi bom para o nosso planejamento. Tivemos fevereiro e março para organizar a vida e o projeto, e começamos as aulas em abril, antes da temporada de verão. Esse período nos permitiu aprender enquanto o movimento da região crescia.
Isso não elimina as dificuldades. Uma mudança internacional envolve dinheiro, trabalho, documentos, moradia, idioma e adaptação. Houve dias cansativos, respostas que demoraram e planos que precisaram mudar. Ainda estamos no começo e sabemos que outras fases virão.
Ao mesmo tempo, a experiência confirmou algo que já sentíamos quando decidimos sair dos Estados Unidos: queríamos descobrir como seria construir uma vida na Itália, e não apenas passar uma temporada aqui. Até agora, valeu a pena tentar. A rotina que temos hoje é diferente da que imaginávamos, mais trabalhosa em alguns pontos e mais leve em outros, mas se aproxima da vida que desejávamos viver.
